“Tudo o que era sólido e estável se desmancha no ar,
tudo o que era sagrado é profanado.”
Karl Marx & Friedrich Engels
O texto A publicação no formato digital não é uma opção, é uma questão de sobrevivência do editor e articulista editorial Carlo Carrenho abre um debate necessário. E polêmico.
Pensar sobre a questão do livro digital depende hoje de mais ousadia entre aqueles que decidem no mercado. A iniciativa do blog Tipos Digitais não pode, nem deve ficar isolada. Ao contrário, todos os atores do mercado editorial devem entrar nesta discussão, internamente nas editoras e publicamente em todos os espaços do mercado.
Ponto de partida
Qual o ponto de partida? Apesar de jovem, comparado com tantos outros lugares do mundo e mesmo da América, nossa indústria editorial já tem história e maturidade. Exatamente por isso tem dificuldades de ver e entender o processo em curso.
Nada mais natural. Os copistas medievais devem ter passado por algo parecido quando Johannes Gutenberg colocou sua tipografia para funcionar.
A média de idade dos editores do mercado editorial é alta. Não estou falando de funcionários contratados, estou falando dos proprietários, daqueles que decidem. Pela minha experiência de 12 anos trabalhando com livros, o mercado editorial brasileiro tem uma média de idade entre 50 e 70 anos. É só lembrar dos jantares de final de ano da CBL, onde há inúmeros ganhadores das bodas de prata e ouro do mercado editorial.
Esse dado é relevante para entender a dificuldade de viver as transformações em curso. Não é uma crítica, veja bem, é uma constatação.
Essa geração não é dependente de internet. Não vive com ela. É diferente de toda a geração que nasceu com internet. Hoje, já temos uma geração de jovens que nunca pagou por música, diretamente. E escuta música o tempo todo com celulares, mp3 players e afins.
Esse é o ponto de partida para entendermos o problema.
Baixo livros desde que entrei na internet em 1996/1997 (eu tinha um HD de 1,7GB, tenho hoje mais do que isso no meu celular). Adorei ler o clássico Anarchy Cookbook e as linhas do fanzine brasileiro mais bacana do início da web, o Barata Elétrica. Mas isso é antiguidade da internet, afinal sou de uma geração pré banda larga, wi-fi, celular etc. Hoje as pessoas vivem com a internet 100% do tempo. Alguns minutos na TV mostram a publicidade sistemática das operadoras de telecomunicação incentivando você a viver 100% conectado. As crianças vão para escola com celulares permanentemente on-line.
Por isso, acredito que o trem da história vai atropelar quem não for rápido. Essa esmagadora roda do progresso da tecnologia digital para os livros vai esmagar quem acreditar que dá para fazê-la rodar para trás. Não dá.
Quando trabalhava na Conrad Editora no ano 2000, instalamos o falecido software Napster. Foi inacreditável: em 48 horas havíamos baixado algo como 600 músicas, na sua maioria temas de séries, trilhas de filmes e músicas obscuras. Ficamos nos divertindo por horas. Se naquele momento tivéssemos um iPod ou se um celular com MP3 player, nos fosse oferecido, pagaríamos o preço que fosse para ter os meios de escutar essas músicas com facilidade. Meu primeiro MP3 player (de 128MB) eu recebi como brinde de uma assinatura de banda larga que fiz. Usei aquilo até queimar.
Hoje, qualquer pessoa que anda de trem/metrô está com seu celular abarrotado de música. Nunca se escutou tanta música na história da humanidade. E isso é bom. Muito bom. Discos obscuros de bandas punk rock da Iugoslávia, cantos tribais africanos, música clássica soviética, samba paulista com Plínio Marcos como mestre de cerimônias, discos da banda Fellini... tudo disponível a dois ou três cliques! Coisas que a indústria musical nem sabia que existia... Passam a ser escutadas.
Entender e começar a estudar destemidamente o que será do futuro do livro. Encarar e desbravar os caminhos deste futuro. Como uma “Corrida ao Oeste” ou uma “Bandeira de Mineração”, por territórios desconhecidos, em busca do novo veio de riquezas do mercado editorial.
O negócio vai mudar. Como mudou na música. Como mudou no cinema. A indústria do cinema hoje, se perdeu dinheiro para a pirataria de DVDs, ganha dinheiro como nunca, nas salas de cinemas boas. Ninguém mais consegue assistir filme nos finais de semana sem fila.
Como tornar viável uma editora com livros digitais? Esse é um problema que os editores precisam se desdobrar para resolver. Não existe resposta pronta. O que tenho a dizer são ideias e especulações. Pistas sobre o caminho e sobre os obstáculos.
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